obesidade-cirurgiaHá extensa literatura visando responder os questionamentos sobre se a cirurgia para obesidade é realmente necessária, existindo a possibilidade, teórica, de um tratamento não cirúrgico. Há também muitos dados para discutir quem seriam os maiores beneficiários da cirurgia.  Entretanto, pensamentos como “por que não faz uma dieta?” e “entra numa academia”, acompanham a opinião pública quando a questão da obesidade é exposta.

Eu, particularmente, gosto muito de exemplificar o amplo conhecimento científico vigente utilizando um estudo que seguiu 14 dos 16 participantes do programa de TV americano “The biggest loser”.

O programa consiste numa competição entre obesos por 30 semanas, onde os participantes são submetidos a um rígido programa de atividade física e dieta, com monitoramento intensivo por profissionais, buscando a perda de peso; aquele que perde mais, ganha um prêmio em dinheiro.

A média de peso desses competidores era de 148 quilos ao iniciar o programa, tendo atingido perda média de 58 quilos cada um, ao final dessas 30 semanas, ilustrando que um regime de acompanhamento clínico intensivo é eficaz quanto à perda de peso.

Entretanto, o gasto calórico basal (a quantidade de energia mínima diária que consumimos, mesmo sem fazer atividade física) diminuiu bastante ao final do regime e se manteve baixa mesmo após 6 anos do processo e após o reganho de 42 quilos, em média, de cada participante e consequente retorno a próximo do peso original – alguns competidores ganharam mais do que perderam.  Isso ilustra e pode explicar o quanto manter o peso perdido é difícil à longo prazo, uma vez que, ao gastarmos menos calorias diariamente para atividades basais nos sobra mais para estocar em processo de ganho de peso (conhecido como efeito sanfona).

São nos pacientes obesos de IMC acima de 35 que a cirurgia tem seu papel, uma vez que a perda de peso não vem acompanhada da diminuição do gasto calórico basal, diminuindo a chance de reganho de peso à longo prazo.

Além disso, a cirurgia provoca também outras alterações hormonais como a diminuição de alguns hormônios, como a grelina e o aumento de outros, como o GLP1, que também servem para, além de propiciar a perda ponderal, ajudar no tratamento de algumas doenças associadas como o Diabetes, fenômeno que não é evidenciado com o tratamento clínico apenas.

No Brasil a indicação cirúrgica tem regulamentação bem específica, de acordo com regras do Conselho Federal de Medicina, que vem sendo atualizadas ao longo dos anos (resolução CFM Nº 2.131/2015).

Está indicada em pacientes com idade acima de 18 anos com:

  • IMC acima de 35 e que sejam portadores de outras doenças associadas a obesidade como pressão alta, diabetes, apneia do sono, problemas articulares ou;
  • IMC superior a 40, independente de outras comorbidades.

Necessariamente o tratamento clínico deve ter sido tentado antes da indicação de cirurgia e o paciente deve ser seguido, previamente, com equipe multiprofissional composta por cirurgião, endocrinologista, nutricionista e psicólogo. Muitas vezes é necessário o acompanhamento por outros profissionais, como cardiologista e pneumologista .

Durante a fase pré-operatória os diferentes profissionais trabalharão com o risco cirúrgico, o comprometimento com o tratamento proposto nas diferentes esferas (incluindo a psicológica), a presença de contraindicações de qualquer espécie à cirurgia e a capacidade do paciente compreender e aceitar os riscos e benefícios envolvidos com o procedimento.

A cirurgia só é realizada caso o paciente preencha todas as indicações cirúrgicas e não apresente nenhuma contraindicação durante o processo de preparo pré–operatório.

Porém, a despeito de regras claras de indicação cirúrgica e de conhecimento cientifico sólido, ainda há grande mística e desinformação quando o assunto é gastroplastia, incluindo o meio médico, o que leva ao retardo no encaminhamento do paciente ao cirurgião e, até mesmo, da tomada de decisão pelo próprio paciente.

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