Consequências de uma boa ideia e bebês resistentes

Imagine que você sofre com uma doença hereditária, como anemia falciforme, hemofilia, fibrose cística, e que um de seus filhos, ou netos, poderá herdar essa condição. Também imagine que um de seus pais ou avós morreu em decorrência do câncer de intestino, ou de estômago, e seu médico o aconselha a manter seus exames sempre em dia – parecendo que, mais cedo ou mais tarde, você também vai receber esse diagnóstico.

Daí que todos os dias você passa a se perguntar o que a ciência fará por você e por milhões de pessoas na mesma situação. E então se depara com a notícia, de novembro de 2018, sobre um pesquisador chinês que apresentou, em um congresso mundial, os primeiros bebês “geneticamente modificados”.

No caso polêmico acima, o cientista He Jiankui – que não tem afiliação, pois a Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul, na China, alegou que o professor não realizou seus experimentos com o consentimento, conhecimento ou remuneração da entidade – após ter utilizado uma técnica de edição de DNA já conhecida desde 2012, chamada Crispr, apresentou, de forma prosaica, que duas bebês gêmeas haviam nascido após a modificação de seus genes. Seus pais, um deles portador do vírus HIV, haviam participado espontaneamente da pesquisa com a finalidade de conceber um bebê não infectado.

A princípio, a bem-sucedida pesquisa era a de que, após manipular os embriões para que não herdassem o vírus HIV, e implantá-los na mãe, as meninas haviam nascido sãs.

Por que então não estamos comemorando?

A técnica chamada Crispr para edição do DNA foi criada a partir de simultâneas pesquisas que ganharam corpo a partir de 2012 e foi “lançado” para diversos usos científicos em 2015. É, grosso modo, editar o DNA de um ser vivo como se fosse um programa de computador onde você digita um novo código. Os cientistas “cortam” a fita do DNA onde desejam mudar, silenciar ou reparar uma sequência de genes e usam uma proteína (chamada Cas9) que será levada pelo RNA para que ela se encarregue da mudança.

Embora a técnica esteja aprovada para uso em pesquisas, ela não saiu do laboratório e nem está sendo usada em humanos. O que de mais concreto foi feito com o auxílio da Crispr foi a criação de órgãos humanos em porcos, para o transplante.

Daí que não houve acompanhamento da comunidade científica mundial, nem da legislação chinesa, da pesquisa que resultou no nascimento das gêmeas. Sem publicação em nenhuma revista científica, sem autorização, nem fiscalização de sua universidade e sequer, sem comprovação de que seja verdade, a pesquisa de Jiankui nem pode ser comemorada.

Ainda que seja verdadeira e comprovada, e que a meninas cresçam saudáveis e sem o HIV, como poderemos saber se elas não desenvolverão outras doenças, até mesmo desconhecidas. E como saber se não transmitirão para seus filhos e netos outras enfermidades com as quais a medicina não sabe lidar (ainda menos do que com o HIV, cujo manejo já é bem conhecido).

Uma das hipóteses dos testes de modificação genética é que a mudança levaria ao desenvolvimento de cânceres, já que podem suprimir defesas justamente contra essa multiplicação indevida de células. Ou seja, ao tentarmos editar um gene para que não carregue uma determinada deformidade, condenaríamos outros a fabricar um novo defeito.

Dessa maneira, por mais que a gente queira que a ciência corra em nosso favor, há de se querer que ela corra em uma linha reta, ética e segura.

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